12 de Agosto de 2012

Extras Lua Nova - A Bolsa De Estudos

(Esse é o maior pedaço que eu tirei de Lua Nova; é a maior parte do capítulo seis – “Manifesto”, como era – e mais sete cenas pequenas que completam a história da “bolsa de estudos” por todo o livro, até o final. Eu achei que tudo era engraçado, mas meus editores discordaram. Não era necessário, então foi sacrificado no altar da edição.)
A bolsa de estudos
Cena um: um dia depois da Bella ter assistido ao filme de zumbi com a Jéssica.
Eu ainda sentia falta de Phoenix em raras ocasiões, quando provocada. Agora, por exemplo, enquanto eu me dirigia ao Banco Federal de Forks para depositar meu pagamento. O que eu não daria para a conveniência de um caixa eletrônico. Ou pelo menos o anonimato de um estranho atrás do balcão.
- Boa tarde, Bella – a mãe da Jéssica me cumprimentou.
- Oi, Sra. Stanley.
- Foi tão bom que você pôde sair com a Jéssica a noite passada. Faz bastante tempo – ela estalou a língua para mim, sorrindo para fazer o som mais amigável. Algo na minha expressão devia estar errado, porque o sorrido de repente murchou, e ela passou a mão, nervosa, pelo cabelo, onde ficou presa por um minuto; o cabelo dela era tão enrolado quanto o da Jéssica, e caía numa disposição dura de cachos rígidos.
Eu sorri de volta, percebendo que foi um segundo tarde demais. Meu tempo de reação estava enferrujado.
- É – eu disse, num tom que esperava que fosse sociável. – Eu estive muito ocupada, sabe. Escola… trabalho… – eu lutei pra achar mais alguma coisa para acrescentar a minha lista curta, mas não achei nada.
- Claro – ela sorriu mais calorosamente, provavelmente feliz que minha resposta parecia de algum jeito normal e bem ajustada.
De repente me ocorreu que talvez eu não estivesse enganada quando pensava que essa fosse a razão por trás do sorriso dela. Quem sabe o que a Jéssica tinha falado pra ela sobre a noite passada? O que quer que tenha sido, não era totalmente confirmado. Eu era a filha da ex excêntrica do Charlie – insanidade podia ser genético. Associada com os doidos da cidade; eu pulei essa, me encolhendo. Vítima de um coma ambulante. Eu decidi que havia um belo dum motivo para eu ser doida, mesmo sem contar as vozes que eu escutava na minha cabeça agora, e me perguntei se a Sra. Stanley realmente pensava isso.
Ela devia ter visto a reflexão nos meus olhos. Ela desviou o olhar rapidamente, para as janelas atrás de mim.
- Trabalho – eu repeti, chamando sua atenção outra vez enquanto colocava meu cheque no balcão. – Que é a razão de eu estar aqui.
Ela sorriu de novo. O batom dela estava sumindo conforme o dia passava, e era claro que ela tinha feito o desenho maior do que seus lábios eram de verdade.
- Como estão as coisas nos Newton? Ela perguntou alegremente.
- Bem. A temporada está começando a esquentar – eu respondi automaticamente, embora ela passasse na frente do estacionamento da loja Olympic de Equipamentos todo dia – ela já devia ter visto os carros desconhecidos. Ela provavelmente conhecia os altos e baixos do negócio de mochileiros melhor do que eu.
Ela acenou distraída enquanto digitava no computado à sua frente. Meus olhos vagaram através do balcão escuro, com suas linhas laranja brilhantes, com os enfeites nos cantos. As paredes e o tapete tinham sido trocados para um cinza mais neutro, mas o balcão era a prova da antiga decoração do prédio.
- Hmmm – O murmúrio da Sra. Stanley estava um tom mais alto que o normal. Eu olhei de volta para ela, só meio interessada, imaginando se tinha alguma aranha na mesa que a tinha assustado.
Mas os olhos dela ainda estavam grudados na tela do computador. Seus dedos sem se mover agora, a expressão dela surpresa e desconfortável. Eu esperei, mas ela não disse mais nada.
- Há algo errado? – Os Newton estavam tentando passar cheques sem fundo?
- Não, não – ela sussurrou rapidamente, olhando para mim com um brilho estranho nos olhos. Ela parecia estar reprimindo algum tipo de excitação. Me lembrou da Jessica quando tinha alguma fofoca nova que estava morrendo para contar.
- Você gostaria de uma cópia do seu saldo? – A Sra. Stanley perguntou ansiosa. Não era um hábito meu – minha conta crescia tão devagar e previsivelmente que não era difícil fazer as contas na minha cabeça. Mas a mudança no tom dela me deixou curiosa. O que tinha na tela do computador que a deixou tão fascinada?
- Claro – eu concordei.
Ela apertou uma tecla e a impressora cuspiu um documento pequeno.
- Aqui está – ela tirou o papel com tanta vontade que rasgou na metade.
- Opa, desculpe por isso – ela deu a volta no balcão, sem encontrar meu olhar curioso, até que encontrasse uma fita crepe. Ela juntou os dois pedaços e me entregou.
- Er, obrigado – eu murmurei. Com o papel em mãos, eu me virei para sair, olhando rápido para ver se conseguia adivinhar qual era o problema da Sra. Stanley.
Eu achava que a minha conta devia ter US$ 1535,00. Estava errada, tinha US$ 1535, 60.
E também tinha 20 mil dólares a mais.
Eu congelei onde estava, tentando entender os números. A conta estava com 20 mil dólares a mais antes do meu depósito de hoje, que tinha sido feito corretamente.
Por um breve momento eu considerei fechar minha conta imediatamente. Mas, suspirando uma vez, eu voltei para o balcão onde a Sra. Stanley estava esperando, com olhos vivos e interessados.
- Houve algum tipo de erro no computador, Sra. Stanley – eu disse a ela, entregando o pedaço de papel. – Só devia ter US$ 1535.
Ela riu conspiratoriamente. – Eu achei que era meio estranho.
- Nos meus sonhos, NE? – eu ri de volta, impressionada com a normalidade do meu tom.
Ela digitou ligeira.
- Vejo o problema aqui… mostra um depósito feito há três semanas de 20 mil dólares de… hmmm, outro banco, me parece. Eu imagino que alguém tenha colocado os números errados.
- Vou me encrencar muito se fizer uma retirada? – eu provoquei.
Ela riu distraída enquanto continuava a digitar.
- Hmmm – ela disse de novo, sua testa franzindo em três rugas fundas. – Parece que foi uma transferência internacional. Não recebemos muitas dessas. Sabe o quê? Vou pedir para a Sra. Gerandy olhar isso aqui… – a voz dela foi sumindo enquanto ela se afastava do computador, seu pescoço se espichando para olhar a porta atrás dela. – Charlotte, está ocupada? – ela chamou.
Não houve resposta. A Sra. Stanley ignorou o silencio e andou até a porta dos fundos onde os gabinetes deveriam estar.
Eu a olhei por um minuto, mas ela não reapareceu. Eu me virei e encarei sem ver as janelas, observando a chuva cair pelo vidro. A chuva caía em jorros imprevisíveis, por vezes pingando para os lados. Eu não contei o tempo que fiquei esperando. Eu tentei deixar minha mente vagar, neutra, não pensando em nada, mas eu não conseguia retornar ao estado de semi consciência.
Eventualmente eu escutei as vozes atrás de mim de novo. Eu me virei e vi a Sra. Stanley e a esposa do Dr. Gerandy vindo até a sala da frente com o mesmo sorriso educado nos dois rostos.
- Me desculpe sobre isso, Bella – Sra. Gerandy disse. – Eu consigo arrumar isso com um simples e curto telefonema. Você pode esperar se quiser. – Ela fez um gesto para a fileira de cadeiras contra a parede. Parecia que elas eram do conjunto de uma mesa de jantar de alguém.
- Ok – eu concordei. Andei até as cadeiras e sentei bem no meio, de repente desejando que tivesse um livro. Não tinha lido nada por algum tempo, fora da escola. E mesmo assim, quando alguma história de amor ridícula fazia parte do currículo, eu trapacearia com notas prontas. Era um alívio estar trabalhando com A Revolução dos Bichos por hora. Mas tinha que ter mais livros seguros. Thrillers policiais. Assassinatos. Mistério. Assassinatos terríveis não eram um problema; contanto que não houvesse nenhum sub-trama com envolvesse olhos brilhantes e romance.
Demorou tanto que eu fiquei irritada. Estava entediada de ficar olhando para a sala cinza, sem nenhum quadro para aliviar a inexpressividade das paredes. Não conseguia ver a Sra. Stanley enquanto ela mexia em uma pilha de papeis, parando uma hora ou outra para digitar algo no computador – ela olhou para mim uma vez, e quando pegou meu olhar, pareceu desconfortável e deixou cair um arquivo. Eu podia ouvir a Sra. Gerandy sussurrando, a voz dela indo e vindo da sala dos fundos, mas não era clara o bastante para falar qualquer coisa além de que ela tinha mentido sobre o telefonema ser curto. Estava demorando tanto que era impossível para qualquer pessoa evitar de deixar a mente vagar por aí, e se isso não terminasse logo, eu não seria capaz de evitar também. Eu teria que pensar. Entrei em pânico de novo, tentando encontrar um pensamento seguro.
Fui sala pela volta da Sra. Gerandy. Eu sorri agradecida para ela quando passou pela porta, seu cabelo grosso e claro chamando a minha atenção.
- Bella, se importaria de se juntar a mim? – ela perguntou, e eu percebi que ela estava com um telefone pressionado contra sua orelha.
- Claro – eu murmurei quando ela desapareceu.
A Sra. Stanley tinha destrancado a metade da porta no final do balcão para me deixar passar. O sorriso dela estava ausente, e ela não encontrou meu olhar. Eu tinha certeza absoluta que ela estava planejando em escutar a conversa.
Minha mente correu pelas possibilidades enquanto eu ia para o gabinete. Alguém estava desviando dinheiro através da minha conta. Ou talvez o Charlie estivesse aceitando subornos e eu estava estragando o disfarce dele. Mas quem teria esse tanto de dinheiro para subornar o Charlie? Talvez o Charlie estivesse na máfia, aceitando subornos, usando a minha conta para lavar dinheiro. Não, eu não conseguia imaginar o Charlie na máfia. Talvez fosse o Phil. Afinal eu não conhecia muito bem o Phil, conhecia?
A Sra. Gerandy ainda estava no telefone, e acenava com o queixo para uma cadeira de metal que estava na frente de sua mesa. Ela estava rabiscando rapidamente no verso de um envelope. Eu sentei, me perguntando se o Phil tinha um passado negro, e se eu ia para a cadeia.
- Obrigada, sim. Bem, acho que isso é tudo. Sim, sim. Muito obrigada por sua ajuda – a Sra. Gerandy deu um sorriso antes de desligar. Ela não parecia brava ou triste. Mais animada e confusa. O que me lembrou da Sra. Stanley na outra sala. Eu brinquei com a idéia de assustá-la por um segundo.
Mas a Sra. Gerandy falou.
- Bom, eu acho que tenho noticias muito boas para você… embora eu não tenha idéia porquê você ainda não ficou sabendo nada disso – Ela me olhou criticamente, como se esperasse que eu batesse na testa e dissesse ”ah, AQUELES vinte mil dólares! Fugiu da minha mente completamente!”
- Boas notícias? – a ficha caiu. As palavras implicavam que esse erro era complicado demais para ela resolver, e ela estava com a impressão de que eu estava mais rica do que há alguns instantes.
- Bom, se você não sabe mesmo… então parabéns! Você foi premiada com um bolsa de estudos da… – ela olhou para baixo e leu suas anotações. – Fundação Pacífica do Noroeste.
- Uma bolsa de estudos? – eu repeti sem acreditar.
- Sim, não é emocionante? Meu Deus, você vai poder ir para qualquer faculdade que quiser!
Foi naquele exato momento, enquanto ela ria feliz com a minha boa sorte, que eu descobri exatamente de onde aquele dinheiro tinha vindo. Fora o ataque de raiva repentino, a suspeita, o ultraje e a dor, eu tentei falar calmamente.
- Uma fundação que deposita uma bolsa de estudos de vinte mil dólares direto na minha conta – eu notei. – Ao invés de pagar na minha escola. Sem poder ter certeza alguma que eu use o dinheiro para pagar a faculdade.
Minha reação a deixou confusa. Ela pareceu ficar ofendida com as minhas palavras.
- Seria muito insensato não usar esse dinheiro para o propósito que foi dado, Bella, querida. Essa é uma oportunidade única.
- É claro – eu disse amargamente. – E essa Fundação Pacífica do Noroeste menciona porquê eles me escolheram?
Ela olhou para as notas de novo, suas sobrancelhas ligeiramente erguidas pelo meu tom.
- É muito prestigio – eles não dão uma bolsa de estudos como premio todos os anos.
- Aposto que não.
Ela me olhou e desviou o olhar rapidamente. – O banco em Seattle que cuida da fundação me encaminhou para um homem que administra a distribuição das bolsas. Ele disse que essa bolsa é entregue baseada no mérito, sexo e localização. É direcionada a estudantes mulheres em cidades pequenas que não tem as oportunidades disponíveis em cidades maiores.
Parecia que alguém achava que estava sendo engraçado.
- Mérito? – eu perguntei desaprovadoramente. – Eu estou na média, tiro notas oito. Posso nomear três garotas em Forks com notas melhores do que eu, e uma delas é a Jessica. Além do que – eu nunca me inscrevi para nenhuma bolsa de estudos.
Ela estava muito perturbada agora, pegando a caneta e deixando-a cair de novo, mexendo no pingente que usava entre o dedão e o indicador. Ela olhou pelas notas outra vez.
- Ele mencionou que – ela manteve os olhos no envelope, sem ter certeza do que fazer com a minha reação. – Eles não recebem inscrições. Eles pegam as inscrições rejeitadas para outras bolsas e escolhem alunos que acham que foram olhados com pouco caso. Eles acharam o seu nome em uma inscrição que você mandou para receber uma bolsa por mérito para a Universidade de Washington.
Eu senti os cantos da minha boca caírem. Eu não sabia que aquela inscrição tinha sido rejeitada. Era algo que eu tinha preenchido há tanto tempo, antes de…
Eu não tinha tentando nenhuma outra possibilidade, embora os prazos de entrega para as inscrições estavam passando. Eu não conseguia me concentrar no futuro. Mas a Universidade de Washington era o único lugar que podia me manter perto de Forks e do Charlie.
- Como eles conseguem as inscrições rejeitadas? – eu perguntei monotonamente.
- Não tenho certeza, querida – a Sra. Gerandy estava triste. Ela queria animação e estava conseguindo hostilidade. Eu queria que tivesse um jeito de explicar que toda a negatividade não era para ela. – Mas o administrador deixou o numero do telefone dele se eu tivesse alguma pergunta – pode ligar você mesma. Eu tenho certeza de que ele pode garantir que esse dinheiro é mesmo para você.
Eu fiquei na dúvida com essa. – Eu gostaria do número dele.
Ela escreveu depressa em um pedaço de papel amassado. Tomei nota mental de doar anonimamente alguns post its para o banco.
O número era de longa distância. – Ele não deixou nenhum email? – eu perguntei cética. Não queria aumentar demais a conta do Charlie.
- Na verdade, ele deixou – ela sorriu, feliz de ter algo que eu quisesse. Ela se esticou por cima da mesa para escrever outra coisa no papel.
- Obrigada, vou entrar em contato com ele assim que chegar em casa – Minha boca era uma linha fina.
- Querida – a Sra. Gerandy disse hesitante. – Você deveria ficar feliz com isso. É uma grande oportunidade.
- Eu não vou receber vinte mil dólares sem merecer – eu rebati, tentando manter um tom de insulto fora da minha voz.
Ela mordeu o lábio e olhou para baixo de novo. Ela achava que eu era doida também. Bem, eu iria fazê-la falar em voz alta.
- O que? – eu exigi.
- Bella… – ela pausou e eu esperei de dentes cerrados. – É muito mais que vinte mil dólares.
- Perdão? – eu engasguei. – Mais?
- Vinte mil dólares é o pagamento inicial, no caso. De agora em diante você receberá cinco mil dólares todos os meses até o final de sua carreira acadêmica. Se você se matricular em uma faculdade, a fundação vai continuar a paga-la! – ela ficou animada outra vez enquanto me contava isso.
Eu não consegui falar a principio, estava lívida de fúria. Cinco mil dólares por tempo ilimitado. Eu queria esmagar alguma coisa.
- Como? – eu consegui dizer.
- Não entendo o que quer dizer.
- Como eu vou receber cinco mil dólares por mês?
- Será depositado na sua conta aqui – ela respondeu, perplexa.
Houve uma pausa pequena.
- Vou fechar essa conta agora – eu disse numa voz seca.
Levou quinze minutos para eu convencê-la de que estava falando a verdade. Ela tinha um suprimento inesgotável de razões do quê isso era uma má idéia. Eu discuti nervosa até que finalmente me ocorreu que ela estava preocupada em me dar os vinte mil. Eles tinham tanto dinheiro assim por aqui?
- Olha, Sra. Gerandy – eu a assegurei. – Eu só quero sacar meus 1500 dólares Iria agradecer muito se você devolvesse o resto do dinheiro para a conta de onde ele veio. Eu vou resolver isso com esse – eu olhei o papel – Sr. Issac Randall. É realmente um erro.
Isso pareceu tranqüilizá-la.
Uns vinte minutos mais tarde, com 15 rolinhos de notas de cem, uma de vinte, uma de dez, uma de cinco, uma de um, e mais cinqüenta centavos no meu bolso, eu escapei do banco aliviada. A Sra. Stanley e a Sra. Gerandy ficara lado a lado no balcão, me encarando de olhos arregalados.
***
Cena dois: a mesma noite, depois de comprar as motos e visitar Jacob pela primeira vez…
Eu fechei a porta atrás de mim e tirei o meu fundo da faculdade do bolso. Parecia bem pequeno na palma da minha mão. Enfiei tudo no dedão de uma meia sem par e coloquei na gaveta de calcinhas. Provavelmente não era o lugar mais original, mas eu me preocuparia em ser criativa depois.
No outro bolso estava o pedaço rasgado de papel com o numero do telefone e email do Isaac Randall. Eu tirei de lá e coloquei perto do teclado do meu computador, então liguei, batendo o pé enquanto a tela lentamente brilhava para a vida.
Depois que eu me conectei, abri minha conta de email gratuita. Eu adiei, dando tempo para deletar a montanha de spam que tinha se criado nos poucos dias desde que eu tinha escrito o email para a Renée. Eventualmente eu fiquei sem ter o que fazer, e abri uma caixa para escrever uma nova mensagem.
O email era endereçado a “irandall”, então eu presumi que iria diretamente ao homem que eu queria.
Caro Sr. Randall, ­eu escrevi.
Espero que você se lembra da conversa que teve nesta manha com a Sra. Gerandy, do Banco Federal de Forks. Meu nome é Isabella Swan, e aparentemente você está com a impressão que eu fui premiada com uma bolsa de estudos muito generosa da Fundação Pacífica do Noroeste.
Peço desculpas, mas eu não posso aceitar essa bolsa. Eu pedi para que o dinheiro que eu já recebi seja devolvido para a conta de onde ele veio, e fechei minha conta no Banco Federal de Forks. Por favor, premie outra pessoa para um candidato diferente.
Obrigada, I. Swan
Tentei algumas vezes até deixar pronto – formal, sem duplos sentidos. Eu li mais duas vezes antes de enviá-lo. Não tinha certeza que tipo de instruções esse Sr. Randall havia recebido sobre a falsa bolsa de estudos, mas eu não conseguia ver nenhum furo em minha resposta.
***
Cena três: algumas semanas depois, logo depois do “encontro” de Bella e Jacob com as motos…
Quando eu voltei, peguei a correspondência na entrada. Passei rapidamente pelas contas e anúncios, até que cheguei a ultima carta da pilha.
Era um envelope normal de negócios, endereçado a mim – meu nome escrito a mão, o que era incomum. Eu olhei para o endereço de retorno interessada.
Interesse que rapidamente virou náusea. A carta era da Divisão de Bolsas de Estudo da Fundação Pacífica do Noroeste. Não havia endereço de rua embaixo do nome.
Era só o reconhecimento oficial da minha recusa, eu disse a mim mesma. Não havia razão para se sentir nervosa. Nenhum razão, exceto pelo pequeno detalhe que se eu pensasse sobre qualquer parte disso muito a fundo, eu podia ir em espiral direto para terra zumbi. Só isso.
Eu joguei o resto da correspondência na mesa para o Charlie, juntei meus livros do chão da sala de estar, e corri para cima. Uma vez em meu quarto, eu tranquei a porta e rasguei o lacre do envelope. Eu tinha que me lembrar de ficar com raiva. Raiva era a chave.
Cara Srta. Swan,
Permita-me parabenizá-la formalmente por ser premiada com a prestigiosa Bolsa de Estudos J. Nicholls da Fundação Pacífica do Noroeste. Essa bolsa de estudos não é concedida frequentemente, e você deveria ficar orgulhosa em saber que o Comitê de Bolsas de Estudo escolheu o seu nome unanimemente para receber a honra.
Tem havido algumas dificuldades em entregar o dinheiro do seu prêmio, mas por favor, não se preocupe. Eu mesmo vou garantir que você não tenha nem a menor das inconveniências. Você encontrará junto com essa carta um cheque próprio de vinte e cinco mil dólares; a bolsa inicial mais o seu primeiro auxilio mensal.
Mais uma vez eu a parabenizo por sua conquista. Por favor aceite os melhores desejos de sucesso de toda a Corporação Pacífica do Noroeste para a sua carreira acadêmica.
Atenciosamente,
I. Randall
Raiva não era o problema.
Eu olhei para o envelope e, claro, lá estava o cheque.
- Quem é essa gente? – eu rosnei entre dentes, amassando a carta, com uma mão só, até virar uma bola apertada.
Eu pisei furiosamente até a lata de lixo, para achar o número de telefone do Sr. I. Randall. Não estava nem aí que era chamada de longa distancia – essa seria uma conversa bem curta.
- Ah, merda – eu sibilei. A lata estava vazia. Charlie tinha tirado o lixo.
Eu joguei o envelope com o cheque na cama e alisei a carta. Era feita em papel de empresa, com as palavras Departamento Das Bolsas de Estudo da Fundação Pacifica do Noroeste escritas em verde escuro na parte de cima, mas não havia nenhuma informação, nenhum telefone.
- Que porcaria.
Eu caí na beirada da minha cama para pensar com clareza. Obviamente, eles iriam me ignorar. Eu não podia ter deixado minhas intenções mais claras, então isso não tinha nenhum erro de comunicação. Provavelmente não faria diferença alguma se eu ligasse.
Então havia só uma coisa a ser feita.
Eu amassei o envelope com o cheque outra vez e desci a escada.
Charlie estava na sala de estar, com a TV ligada alto.
Fui até a pia e coloque as bolas de papel nela. Então eu remexi a nossa gaveta de porcarias até achar uma caixa de fósforos. Eu risquei um, e encostei cuidadosamente numa fissura do papel. Risquei mais um, e fiz a mesma coisa. Quase fui para um terceiro, mas o papel já estava em chamas alegres, então não tinha necessidade.
- Bella? – Charlie chamou mais alto que a TV.
Eu girei a torneira rapidamente, sentindo satisfação quando a água bateu nas chamas, transformando tudo numa meleca fedida.
- Sim, pai? – eu coloquei os fósforos de volta na gaveta, e a fechei silenciosamente.
- Está sentindo cheiro de queimado?
- Não, pai.
- Hmm.
Eu limpei a pia, me certificando que toda a gosma tinha descido pelo cano, e então liguei o triturador de lixo para garantir.
Voltei para o meu quarto, me sentindo muito mais calma. Eles podiam mandar quantos cheques eles quisessem, eu pensei cruelmente. Eu sempre podia comprar mais fósforos quando aqueles acabassem.
***
Cena quatro: durante o tempo que Jacob a está evitando…
Na soleira da porta tinha um pacote do FedEx. Eu peguei curiosamente, esperando um endereço da Florida, mas era de Seattle. Não havia nenhum remetente listado do lado de fora da caixa.
Estava endereçado a mim, não ao Charlie, então eu o levei para a mesa e rasguei o lacre para abrir.
Assim que eu vi a letra verde do logo da Fundação Pacifica do Noroeste, eu senti como se a infecção do estomago tivesse voltado. Desabei na cadeira mais próxima, encarando a carta, a raiva crescendo lentamente.
Eu nem conseguia me fazer lê-la, embora não fosse longa. Eu retirei de dentro, coloquei de cabeça para baixo na mesa, e olhei de volta para a caixa, relutante, para ver o que tinha. Era um envelope grosso feito em papel-manilha. Eu estava com medo de abri-lo, mas com raiva o suficiente para tirá-lo lá de dentro.
Minha boca se tornou uma linha dura conforme eu rasgava o papel, sem me importar com o selo. Eu já tinha bastante com o que lidar no momento. Não precisava da lembrança nem da irritação.
Eu fiquei chocada, e mesmo assim, surpresa. O que mais poderia seria senão isso – três montes espessos de notas, empilhados com elásticos grossos? Eu nem tinha que olhar para os números. Sabia exatamente o quanto eles estariam tentando forçar para mim. Seriam trinta mil dólares.
Eu peguei o envelope cuidadosamente quando levantei, e me virei para jogá-lo na pia. Os fósforos estavam bem em cima na gaveta de tranqueiras, bem onde eu tinha deixado. Eu tirei um e o acendi.
O fogo foi chegando cada vez mais perto e mais perto dos meus dedos enquanto eu encarava o envelope idiota. Não conseguia fazer meus dedos o deixarem cair. Balancei o fósforo antes que ele me queimasse, meu rosto se transformando numa careta de nojo.
Eu peguei a carta da mesa, amassando até que virasse uma bola, e jogando outra divisão da pia. Acendi outro fósforo e o encostei no papel, observando com um prazer sinistro enquanto o fogo o consumia. Esquentou rápido. Me estiquei para pegar outro fósforo. Outra vez, eu o segurei, queimando, perto do envelope. De novo, queimou quase até os meus dedos antes que eu jogasse no envelope que já era um monte de cinzas. Mas eu não conseguia simplesmente queimar trinta mil dólares.
Então o que eu ia fazer com o dinheiro? Não tinha endereço para retorno – eu tinha quase certeza que a companhia nem existia.
Então me ocorreu que eu tinha sim, outro endereço.
Coloquei o dinheiro dentro da caixa do FedEX, tirando a etiqueta de destinatário, para o caso de se alguém encontrasse a caixa, não teria como me ligar ao dinheiro, e voltei para a minha picape, resmungando incoerentemente pelo caminho. Eu prometi a mim mesma que iria fazer algo especialmente imprudente com a moto essa semana. Eu pularia no ar se precisasse.
Eu odiei cada metro da viagem enquanto passava pelas arvores sombrias, trincando os dentes até que meu maxilar doesse. Os pesadelos seriam horríveis essa noite – eu estava provocando. As árvores se abriram nas samambaias, eu dirigi mais rápido e com mais raiva por elas, deixando uma marca dupla de galhos quebrados e molhados atrás de mim. Eu parei quase nos degraus da frente, deixando na banguela.
A casa estava exatamente a mesma, dolorosamente vazia, morta. Eu sabia que estava projetando meus sentimentos à aparência dela, mas isso não mudava o jeito que ela parecia pra mim. Tomando cuidado para não olhar pelas janelas, eu andei até a porta da frente. Eu desejei desesperadamente para ser o zumbi por só um minuto, mas a dormência tinha ido embora para sempre.
Eu deixei a caixa cuidadosamente no degrau da casa abandonada, e me virei para ir embora.
Eu parei no primeiro degrau. Não podia só deixar uma pilha de dinheiro na frente da porta. Era quase tão ruim quanto queimá-la.
Com um suspiro, mantendo meus olhos baixos, eu virei e peguei a caixa ofensiva. Talvez eu doasse anonimamente para uma boa causa. Caridade para pessoas com doenças sanguíneas, ou algo assim.
Mas eu estava sacudindo a cabeça quando voltei para a picape. Era o dinheiro dele, e, droga, ele ia ficar com ele. Se fosse roubado da frente da casa dele, então era culpa dele, e não minha.
Minha janela estava aberta, e ao invés de sair, eu só atirei a caixa na direção da porta com o Maximo de força que pude reunir.
Eu nunca tinha tido a melhor pontaria. A caixa se chocou ruidosamente contra a janela da frente, deixando um buraco tão grande que era como se eu tivesse jogado uma maquina de levar.
- Ah, que merda! – eu ofeguei em voz alta, cobrindo meu rosto com as mãos.
Eu devia ter sabido que, não importa o que eu fizesse, só deixaria as coisas piores.
Por sorte, o ódio voltou nessa hora. Isso era culpa dele, eu me lembrei. Eu só estava devolvendo as coisas dele. Era problema dele se ele tinha tornado essa tarefa tão difícil. Além do mais, o barulho do vidro quebrando era legal – me fez sentir um pouco melhor, de um jeito perverso.
Eu não tinha me convencido completamente, mas eu tirei a picape da banguela e dirigi de volta mesmo assim. Isso era o mais próximo de devolver o dinheiro para onde ele pertencia. E agora eu tinha feito uma caixa de correio pra lá de boa para as contas dos próximos meses. Era o melhor que eu podia fazer.
Eu repensei cem vezes depois que cheguei em casa. Procurei na agenda de telefones, algum número para vidraceiros, mas não tinha ninguém desconhecido para me ajudar. E como eu explicaria o endereço? O Charlie me prenderia por vandalismo?
***
Cena cinco: a primeira noite que Alice volta depois de ver Bella “cometendo suicídio”…
- Jasper não quis vir com você?
- Ele não aprova a minha interferência.
Eu funguei. – Você não é a única.
Ela ficou rígida, depois relaxou. – Isso tem alguma coisa a ver com o buraco na janela da frente da minha casa e uma caixa cheia de notas de cem dólares no chão da sala de estar?
- Tem sim – eu disse nervosa. – Desculpe pela janela. Foi um acidente.
- Normalmente é assim com você. O que ele fez?
- Algo chamado Fundação Pacifica do Noroeste me premiou com uma bolsa de estudos muito estranha e persistente. Não foi bem disfarçado. Quer dizer, eu não posso imaginar que ele queria que eu soubesse que era ele, mas eu espero que ele ao pense que eu sou assim tão burra.
- Por que, aquele traidor…? – Alice murmurou.
- Exatamente.
- E ele me disse para não olhar – Ela sacudiu a cabeça, irritada.
***
Cena seis: com Edward na noite depois da Itália, no quarto da Bella…
- Tem algum motivo pelo qual o perigo não pode resistir a você mais que eu resisto?
- O perigo não tenta – eu murmurei.
- É claro, parece que você andou muito ocupada procurando pelo perigo. O que você estava pensando, Bella? Eu vi na cabeça do Charlie o numero de vezes que você foi para o pronto socorro. Mencionei que estou bravo com você?
A voz dele parecia mais magoada do que nervosa.
- Por quê? Não é da sua conta – eu disse, envergonhada.
- Na verdade, eu me lembro de você me prometendo especificamente não fazer nada imprudente.
Minha resposta foi rápida. – E você não me prometeu algo sobre “não interferir”?
- Enquanto você estava quebrando sua promessa – ele qualificou cuidadosamente. – eu estava mantendo meu lado do acordo.
- Ah, verdade? Três palavras, Edward: Fundação. Pacifica. Noroeste.
Ele ergueu a cabeça para me olhar; sua expressão era confusa e inocente – inocente demais. Foi ela que o entregou. – É pra isso fazer algum sentido para mim?
- Isso é insultante – eu reclamei. – Você acha que eu sou assim tão burra?
- Eu não tenho idéia do que você está falando – ele disse, olhos arregalados.
- Que seja – eu resmunguei.
***
Cena sete, a conclusão desse extra: na mesma noite/manhã, quando eles chegam na casa dos Cullen para a votação…
De repente, a luz da varanda acendeu, e eu pude ver Esme parada à porta. Seu cabelo caramelo ondulado para trás, e ela tinha algum tipo de toalha na mão.
- Estão todos em casa? – eu perguntei esperançosamente quando subimos as escadas.
- Sim, estão – Quando ela falou, as janelas abruptamente se encheram de luz. Eu olhei atrás da mais próxima para ver quem tinha nos notado, mas a panela cheia de estilhaços grossos e cinzas na frente da janela chamou a minha atenção. Eu olhei para a perfeição do vidro, e percebi o que a Esme estava fazendo na varanda com uma toalha.
- Ah, droga, Esme! Sinto muito mesmo pela janela! Eu ia -
- Não se preocupe – ela me interrompeu com uma risada. – Alice me contou a historia, e tenho que dizer, eu não teria culpado você por ter feito isso de propósito – Ela olhou para seu filho, que estava me encarando.
Eu levantei uma sobrancelha. Ele desviou o olhar e murmurou algo indistinto sobre cavalos dados.

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